Desatando Nós
Era tamanha a loucura que nada mais havia do que desatar estes nós. Estes que prendiam o peito, que se emaranhavam ante minhas artérias. Que nós! E a cada nó desatado mais intenso ficava o coração – TUM! TUM! O sangue fervia em minhas veias mais forte... As cordas pendiam ponta a ponta num abismo mais ou menos escuro sobre uma luz rarefeita ao longe... Desatavam-se os fios, os nós sobressaíam pelas pontas rumo ao abismo... O coração batia ainda mais forte. TUM! TUM! Vinha algo além do que minhas pálpebras viam, eram as pontas dos dedos que tocavam um no outro. Era ela. O sexo cálido, o cheiro do perfume, o beijo nos lábios roubado. “Não era pra ter demorado tanto” Ela disse. Augusto Fagundes
Um Poema de Encontro
Não tenho tantos anseios como os tive ontem Quando nossos olhos formavam numa só sincronia Os limites e extensões de nossas orelhas ou cabelos, Percorrendo minuciosamente cada qual com seus olhinhos duplos o rosto um do outro, Os lábios nem se tocavam, apenas as pontas dos dedos, Dos seus, Deslizando de canto a outro do rosto Sobre a sobrancelha desalinhada Ou os fios rebeldes do cabelo Ou procurando o resto do chocolate no canto da boca. Nossos corpos vibravam, Podíamos ouvir nossa música tocando ao longe. O solo rítmico de Gary Moore Lembrando nosso encontro de meses atrás Sem enlace nem sexo, Nosso gozo flutuava ante os alicerces poéticos de Ginsberg, Ante a fumaça do cigarro do cara ao lado, O riso frouxo, Dos seus lábios um “Eu te amo” baixinho Como era mesmo? “Eu te amo” e repetia de novo. Augusto Fagundes
Casal. Tal Assim
Da janela a brisa tênue pairava sobre as linhas da cortina arroxeada. Beijava teus lábios ainda sonolentos enquanto ouvia teus resmungos abafados e a tentativa de se virar para o lado direito. A alça da camisola deslizava pelo ombro rosada. Fina. ”Eu te Amo”, como um sopro em teu ouvido, talvez tivesse dito várias vezes seguidas Abafado. Ao pé do ouvido. Um beijo na testa e os teus lábios balbuciavam ainda mais sonolentos. “Também te amo, Amor” e me abraçava. Os olhos nem abriram. Virava-se então para o lado direito os ombros nus davam certa harmonia àquele quarto ‘feminimamente’ decorado. Ouvira o teu suspiro. Dormira. Dos ombros o beijo matinal. Café da manhã, enquanto a Mel late e abana o rabo à procura de ração. Dos olhos o encontro na cozinha, o beijo arrumado. Bem vestida. “Bom dia, Amor!” “Bom dia, Linda!” Augusto Fagundes
A Uma Tal de Rafaela
Rafinha, dos lábios carnudos, dos beijos e das unhas compridas. Como veio do seu nome a lembrança esquecida? Do liso cabelo louro. E que hoje de nossas bocas. A língua faz pequenas ondas no céu de nossas bocas. Nossas bocas num estalo. Enlace na cintura como a pegar um animal feroz. Abril. De nossas almas o eterno mais que Eterno Abril sonhado. Rafinha, dos seus lábios um ‘Eu te Amo’ ou tua cintura viva buscando unir a minha. Ginsberg tremeria ante nossos corpos nus de fim de tarde, enquanto recita um trecho de Uivo. nosso sexo era a poesia cantada em pequenas notas ritmadas. Coxas! Coxas com coxas! Virilhas nauseantes cambaleando sobre o bumbo. Amor! Amor! Rafaela. Um beijo n’alma. Augusto Fagundes
Dias Ruins
Dias ruins não deveriam durar 24 horas Dias ruins deveriam durar Mais ou menos uns poucos segundos Talvez dez Ou talvez o necessário que não doa o coração E que fosse apenas raiva Ou aquela indignação contida Nuns mínimos palavrões E que o sono depois viesse e bruto tomassem nossos olhos E que fosse então outro dia Esquecido. Augusto Fagundes
Crônica de Nós Dois
Para a Evelyn Costa
Sua boca abria e fechava e eu podia ver a língua que deslizava sorrateira lá dentro de encontro aos dentes. Você falava algo relacionado ao seu dia e de como fora estressante enquanto gesticulava imitando os gestos daquela insuportável… – Como é mesmo o nome? – Rebeca. E você repetia pela terceira ou quarta vez esse nome. Rebeca. Dava para perceber a cara de nojo que fazia todas as vezes que pronunciava. Rebeca. Nome bonito, mas não me atreveria a dizê-lo. Na verdade eu preferia só ouvi-la. Sua voz. O riso infantil. Tudo ali se tornava habitual, seus braços nus e o cotovelo sobre a mesa deixava todo o seu corpo harmonioso. Os seios transpareciam de leve sobre o decote e eu tentava buscar algo que me despertasse daquele torpor. Eu podia passar dias ouvindo-a e mesmo que só entendesse meia dúzia de palavras tornando suas frases desconexas a sua presença nessa tarde tornava a cena típica dos encontros de Hemingway em Paris.
Eu era o expectador de suas venturas enquanto bebia outro gole de uísque. Retomava o fôlego enquanto eu me perguntava. ”Como ela arruma tanto o que falar?”. Se eu fosse um desenhista faria um retrato seu nos mínimos detalhes. Lábios. Olhos. Sobrancelha. De tanto a observar. Sorria quando você sorria mesmo não sabendo por que sorria. Ria quando você ria mesmo não sabendo por que ria. Tinha algo de fascinante naqueles olhos que notei logo na primeira vez que a vi. Talvez, dois ou três anos atrás quando percorria com minhas pernas apressadas e uma poesia em mãos que havia escrito na véspera. Lembra? Dois ou três anos atrás eu buscava ansioso algum vestígio de mesma admiração daquela que eu sentia por você. E parece que foi ontem. Talvez eu não vá repetir essas mesmas cenas infantilóides de dois ou três anos atrás. Amadurecemos. Mas a algo naqueles olhos que hoje ao olhá-la ainda me fascinam, ainda mais quando sorri e os olhos se fecham.
Pessoas passavam por nós e o cheiro delas pairava sobre a nossa mesa até se dissiparem num novo assunto que você ansiosamente começava. Feliz. Sorrindo. O assunto não era mais a Roberta – Rebeca! Ela dizia. Nunca fui bom para guardar nomes. Apenas rostos. Havia outro casal ali. Duas mesas à direita da nossa. E aquela mulher conversava tão entusiasmada quanto a Evy (ou Evelyn) e pensando que, talvez, aquele homem esteja tendo a mesma reação que eu. O mesmo pensamento. Outro Augusto. Outra Evy. E podia ver outros Augustos e outras Evelyns naquele restaurante. Naquela esquina. Ou em frente à banca de jornal que ficava do outro lado do asfalto.
Será que tinham os mesmos assuntos? E quando me distraia observando algum outro casal e você se virava para a mesma direção – O que você está olhando? – Nada não. E como é aquele filme que você havia comentado uns dias atrás? Ela desenrolava todo o enredo do filme. Mexia nos cabelos quase louros e eu dizia que estava ótimo daquele jeito. Deixe os cabelos soltos. Você fica linda de cabelos soltos.
O garçom já nos conhecia. De nome mesmo. Eram nossas tardes naquele restaurante que ficava a dois quarteirões de onde trabalhávamos. Embora nossos encontros fossem tão casuais e sem compromisso. Não marcávamos encontro. Víamos-nos e simplesmente íamos para aquele restaurante. Três ou quatro vezes por semana. Restaurante. Nós a sós. E as suas conversas cheias de gestos e risos.
Não ousava olhar no relógio para descobrir quanto tempo estávamos conversando. Trinta minutos era o meu chute levando em consideração o tempo que levávamos para chamar o garçom para mais uma bebida ou sobremesa ou rindo de algum transeunte de roupa espalhafatosa. Olhei para o relógio e havia se passado uma hora e meia. E eu ainda não descobri o que significava tudo aquilo. Se eu tinha vontade de beijá-la? Tinha. Como tinha vontade de apenas observá-la. Sem toque. Se eu tinha vontade de agarrá-la? Tinha. Como tinha apenas vontade de ouvi-la. Sem toque.
Chamei o garçom. Insisti em pagar a conta. Pelo menos por hoje. Enquanto pegava o cartão de crédito na carteira eu tentava imaginar o que sentia por você. Talvez nunca descubra. Talvez esse mistério que faz com que nos embalemos nessa sintonia quase hermética de nossas almas. Ou que talvez essas minhas observações sejam apenas meras observações. Seus olhos. A sobrancelha bem feita. Eu gosto de suas sobrancelhas. Ou do formato de sua boca.
Despedimos-nos. Um beijo no canto da boca. As ruas eram as mesmas com suas roupas novas e em minha cabeça eu revia nossos assuntos e algo de que eu possa lembrar antes de dormir. Amanhã também será assim?
Augusto Fagundes





